No livro “A câmara clara”, Roland Barthes conceituou a dualidade que norteia a forma como apreciamos uma determinada fotografia: o punctum que diz respeito aos aspectos subjetivos e o studium que diz respeito aos aspectos objetivos.
O studium está ligado ao que é técnico numa fotografia e diz respeito ao contexto cultural no qual a produção e/ou fruição da imagem está vinculado. O studium é racional.
Já o punctum é subjetivo, pessoal, não se transfere e diz respeito ao que emociona um determinado indivíduo e em consequência torna o receptor, coautor da fotografia, “(…) é aquilo que eu acrescento à fotografia e que, no entanto, já está lá” (BARTHES, 1984, p.32).
Proponho comparar esses conceitos barthesianos com o que Ciro Marcondes Filho nos diz a respeito da comunicação, que ele entende ser um evento raro, que acontece quando somos afetados pela estranheza de uma mensagem, que no presente contexto é a mensagem visual. Para tangibilizar o que esse evento, Ciro descreve a interação entre pessoas, para examinar como é possível um indivíduo ser afetado pelo outro. “[...] esse lado obscuro do outro é exatamente o que me renova; se o outro não tiver nada de desconhecido, de inacessível, de insondável, inviolável, se for mera e contínua trivialidade, então ele será monótono, sem graça, puro tédio. Ora, para provocar algo em mim, para realizar a comunicação o outro tem que me chocar exatamente pela sua estranheza, pela sua diferença, por suas idiossincrasias, por tudo aquilo que eu não tenho, que não sou”. (FILHO, 2013, p.33).
Portanto, o punctum é o que nos afeta pela sua estranheza e desconhecimento. Ele fere, desestabiliza e choca. O punctum nos desequilibra, provoca tensão, desconforto emocional e conflitos, que são forças capazes de nos colocar em ação. Por isso ele é Energia Vital.
Mesmo que intuitivamente sabemos que não conseguimos nos manter num estado de tensão constante. Nossa busca é pelo equilíbrio. Porém como nos lembra a professora e designer Donis A. Dondis,
"Se a mente humana obtivesse tudo aquilo que busca tão avidamente em todos os seus processos de pensamento, o que seria dela? Chegaria a um estado de equilíbrio imponderável, estável e imóvel – ao repouso absoluto. O contraste é uma força de oposição e esse apetite humano. Desequilibra, choca, estimula, chama atenção. Sem ele, a mente tenderia a erradicar todas as sensações, criando um clima de morte e ausência de ser. (...) Como em qualquer ambiente em que predominasse a cor cinza, teríamos a sensação da visão sem ver". (DONDIS, 2007, p.108)
Assim, das intersecções das ideias de Barthes e Marcondes Filho é possível perceber que, o punctum é aquilo que proporciona eventos comunicacionais.
Referências:
BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes. 1997.
FILHO, Ciro Marcondes. O rosto e a máquina. São Paulo: Paulus, 2013.