“Que somos?” Com essa pergunta o economista Celso Furtado iniciou a conferência sobre cultura e desenvolvimento no I Encontro de Política Cultural em Belo Horizonte. Essa indagação teve o propósito de convidar a refletir sobre a identidade de uma comunidade no que tange a traçar seu desenvolvimento de forma que o mesmo “se alimente da criatividade do povo e contribua para satisfação dos anseios legítimos do mesmo” (FURTADO, 2012, p. 33). Em sua fala, Furtado destaca que identificar o que nos é essencial, é o caminho para romper com a lógica imposta pelos países desenvolvidos no qual a economia é um fim, e substitui-la pela lógica na qual a cultura é um fim e economia é um meio. 
No centro da questão de identidade está a interação entre a cultura enquanto sistema de valores e o processo de desenvolvimento de forças produtivas (FURTADO, 2012). Saber quem somos pode nos levar a entender e definir comportamentos e escolhas no que tange à educação, cultura, pesquisa e desenvolvimento, acesso universal, infraestrutura urbana, emprego estratégico de mão de obra, tecnologias a serem desenvolvidas e empregadas, exploração de recursos, dentre outros.
O planejamento local de longo e médio prazos em cidades nas quais a criatividade funciona como um ímã que atrai e mantém pessoas que geram enriquecimento material e imaterial por meio de suas capacidades intelectuais, deve levar em consideração conexões de naturezas histórica e geográfica, para atuarem como fornecedores de elementos para a construção da identidade e auxiliar na redução da fragmentação da cidade pela aproximação do território desejado pela sociedade com o território real. 
É oportuno observar que as rodas de samba são capazes promover a geração de riquezas de diferentes naturezas no que se refere a aproximação entre a economia criativa e a economia da experiência. Pine e Gilmore (1999) afirmam que a economia da experiência valoriza o produto oferecido pela sua condição especial, na qual o consumidor desfruta de eventos autênticos e memoráveis que oferecem sensações, heranças culturais ou opções pessoais em vez da compra de um serviço caracterizado como um conjunto de atividades oferecidas em seu nome.
Todavia, conforme observado por Canclini, é adequado lembrar que na América Latina há um marcante conflito entre o tradicional e o moderno que promove a depreciação de algumas de nossas particularidades. Esse impasse deve ser solucionado visto que as funções do que é tradicional e do moderno podem e devem ser preservadas da mesma forma que suas transformações devem ser assimiladas sem a necessidade de estagnação diante do que se extinguiu. Dessa forma é possível pensar, por exemplo, que as rodas de samba (tradicional) podem divulgar o turismo ou promover a ocupação de regiões da cidade (moderno).  Mesmo criando novas janelas para escaparmos da desvalorização do tradicional diante do moderno e vice-versa, percebemos que diante do mundo globalizado, ao desqualificarmos nossa cultura, assumimos como nossa a cultura e os bens de consumo característicos das economias imperialistas. Para Furtado (2012), diante desse dilema a questão é como apropriar-se do hardware da informática sem intoxicar-se com o software de forma a não ressecar nossas raízes culturais.
Ainda refletindo sobre as potencias e forças provenientes das particularidades culturais do Rio de Janeiro, é pertinente observamos uma peculiaridade descrita por Benhamou (2007) em relação ao campo da economia da cultura.  A economista nota que o consumo de bens culturais constituem uma exceção à teoria da diminuição da utilidade marginal,  por meio do qual,  via de regra, o consumidor tende a valorizar mais a primeira aquisição de um item e a partir da aquisição do segundo item seu interesse começa a reduzir. Para economia da cultura essa lógica é inversa já que quanto mais consumimos um item maior passa ser o interesse pelo mesmo. Dessa forma, quanto mais escutamos um samba mais aumentamos nosso gosto por ele.      
Diante do exposta até o momento e percebendo a forte relação entre identidade e desenvolvimento, é propício refletir mais uma vez com Furtado sobre a questão de identidade como via de desenvolvimento. 
“que somos? É dessa interrogação que se deve partir para formular uma política cultural, que outra coisa não é senão um estímulo organizado a formas de criatividade que enriquecem a vida dos membros da coletividade.” (FURTADO, 2012, p. 41).

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