As vozes ancestrais da roda de samba da Pedra do Sal

A roda de samba da Pedra do Sal acontece às segundas feiras à noite na Pedra do Sal - Largo João da Baiana -, no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro. Estive no local em setembro de 2018, como mestrando, para fotografar a referida roda de samba como parte do estudo “Rede Carioca de Rodas de Samba: um caminho para consolidação do samba carioca, transmitindo cultura a preço acessível”, realizado como projeto final da disciplina “Gestão avançada de projetos culturais para cidades criativas” do mestrado em Gestão da Economia Criativa realizado na ESPM Rio.
É oportuno observar que as rodas de samba são capazes de promover a geração de riquezas de diferentes naturezas no que se refere a aproximação entre a economia criativa e a economia da experiência. Pine e Gilmore (1999) afirmam que a economia da experiência valoriza o produto oferecido pela sua condição especial, na qual o consumidor desfruta de eventos autênticos e memoráveis que oferecem sensações, heranças culturais ou opções pessoais em vez da compra de um serviço caracterizado como um conjunto de atividades oferecidas em seu nome. 
O chão no qual se realiza a roda é histórico e fica numa região conhecida como a Pequena África, próxima ao antigo cais do porto do Rio de Janeiro. Ali, pessoas escravizadas entravam no Rio de Janeiro, vindas do continente africano, para serem comercializadas como “peças” no Valongo. 
No largo João da Baiana há uma placa da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, que diz “neste local o sal era descarregado das embarcações que aportavam nas proximidades. Passou depois a ponto de encontro de sambistas que trabalhavam como estivadores”. A escada da Pedra do Sal, que possibilitou o acesso até os armazéns nos quais o sal era abrigado, foi construída e usada por escravizados. Até hoje está lá, porém agora serve para crianças escorregarem na pedra durante o dia e acolher os visitantes e locais nos eventos da noite.
Esse território é importante para cultura brasileira, sendo um documento histórico.
O primeiro samba gravado no Rio de Janeiro, “pelo telefone”, foi feito na Pedra do Sal.
A roda de samba da Pedra do Sal é única na cidade. Até os dias atuais, os encontros servem como resistência para suportar as dificuldades. A roda é cultura, resgate e preservação. 
Ali, na mesa dos músicos, há um grande alguidar de barro para o público colaborar diretamente com os músicos, oferecendo a quantia que desejar.
Ali os instrumentos musicais são microfonados, para que se possa escutar o ritmo e a melodia ao longe. As vozes dos homens que conduzem o samba não são microfonadas, assim como não eram microfonadas as vozes dos antepassados que cantavam nas rodas de samba. Quem participa da roda, canta com força e com vontade, para produzir uma voz única que ecoa pelas paredes antigas dos bares, casas e da escadaria da Pedra do Sal. Como efeito, as vozes atuais do canto que escutamos nessa roda de samba, repercutem junto com as vozes dos mais antigos para quem a cada segunda feira se celebra a memória.
Na sequencia fotográfica apresentada, a atmosfera particular, de que ali acontece algo diferente do resto da cidade se completa com a iluminação produzida por antigas luminárias urbanas que usam lâmpadas de vapor de sódio para banhar o local com  uma luz laranja de pouca intensidade, que vêm sendo substituídas por lâmpadas frias de led, que produzem uma iluminação branca, corriqueira e que tudo revela sem conferir nenhum mistério.

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