Esta fotografia resulta de uma dupla exposição realizada em filme reaproveitado, retirado de outra câmera na qual já havia sido parcialmente exposto. Ao registrar a festa de Iemanjá, a cena do xirê encontrou vestígios de um tempo anterior gravado no mesmo suporte. A imagem surge, assim, do encontro entre dois acontecimentos: o rito presente e a memória latente do filme.
O acaso não aparece apenas como imprevisto técnico, mas como condição de construção da própria fotografia. Sobreposições, transparências e deslocamentos tornam visível a coexistência de tempos e presenças, transformando o registro em uma espécie de aparição. A fotografia deixa de ser somente documento e passa a operar como campo de revelação, no qual o visível se organiza pela contingência do gesto e pela materialidade do filme.